jornalismo

Literacia mediática?

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A Unesco, a União Europeia e as universidades têm desenvolvido esforços no sentido de avaliar os níveis de literacia mediática. Qual será a importância desta competência para a formação de cidadãos mais interventivos?

O hábito da gratuitidade da informação online

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Imagem retirada de Portal Intera Mais

Com a internet, esse conjunto de nós interligados como diz Castells, habituamo-nos a ter acesso a quase tudo gratuitamente. Este império, também do efémero, foi mais um dos factores a colocar em perigo o jornalismo tradicional. Jornais e revistas procuraram marcar presença online e foram-se atrofiando ainda mais. À deriva e, acima de tudo, caindo no erro de pensar que a opção pelo digital diminuiria custos. Erro crasso. O meio digital exige mais recursos, alia texto, imagem, som e vídeo, obriga à contratação de profissionais que dominem os meios e tenham competências digitais. Deveriam ter apostado num serviço diferenciado, em boas reportagens, bem contextualizadas, com ligações para assuntos anteriores, boas imagens só garantidas por profissionais que mereçam ser bem pagos e por jornalistas que fuçam, desenterram assuntos, mas, também precisam de tempo para investigar e produzir conteúdos que façam com que os leitores sintam que vale a pena pagar para ser melhor servido. Tudo isto vem a propósito do artigo de Daniel Oliveira E se de repente a informação voltasse a ser paga? . Em resumo precisa-se de mais conteúdo (sumo), de mais qualidade, de mais criatividade e de mais investimento para que o leitor sinta que aquilo que lhe estão a fornecer vale a pena ser pago, porque não o vão encontrar em outro lado, porque acrescenta valor, é distinto.

E do rol de reflexões no texto  cuja ligação está ali em cima, destaco:

A cultura dos utilizadores da Net ainda é uma cultura de gratuitidade.

Porque produzir informação custa dinheiro. Não é o mesmo que espalhar coisas pelo facebook. É recolher, selecionar, verificar e tratar informação. O que exige profissionais, tempo e meios. E, curiosamente, continua a ser esta informação tratada por jornalistas que a maioria dos cidadãos usa para, mesmo através doutros meios como as redes sociais, se informar. Arrisco-me a dizer que nunca a informação produzida por jornalistas foi tão usada e nunca, desde que há imprensa comercial, rendeu tão pouco dinheiro. Por agora, não poderemos viver sem jornalismo – a não ser quem se contenta com correntes de emails populistas para se manter “informado”. Mas ainda não temos forma de manter a atividade jornalística economicamente sustentável. Sobretudo quando as empresas das tecnologias de informação vampirizam, sem custos, o trabalho dos órgãos de comunicação social.

E Daniel Oliveira fala das revoluções necessárias, algo que, no conjunto, são bem difíceis de alcançar:

A dos leitores: têm de se habituar à ideia de que se quiserem continuar a informar-se gratuitamente terão de ter como única fonte o “diz que disse”.

A da regulação: empresas que usam informação produzida por outros para obter lucro têm de pagar por ela.

A dos jornalistas: terão de provar que há uma diferença entre receber informação deles ou de um qualquer boateiro. Nunca a credibilidade, numa rede cheia de lixo, foi um bem tão valioso. E têm de produzir informação própria, não se limitando a usar as fontes institucionais (responsáveis pela esmagadora maioria da informação jornalística). Se os jornalistas se limitam a replicar as fontes, a cultura e os critérios das redes sociais não têm nenhuma vantagem sobre elas. São apenas mais lentos e menos flexíveis. Têm de adaptar-se ao digital, não repetindo o que funciona no papel mas não é seguro que funcione num site. Mas não repetindo um lugar comum por provar: não é verdade que a Net só aguente textos curtos e assuntos leves.

A dos empresários: para garantirem muito mais velocidade e qualidade, os sites exigem mais investimento (em tempo de crise e quando não têm retorno). E exigem, provavelmente, uma fronteira menos clara entre os vários meios do mesmo grupo (rádios, televisões, jornais), com os riscos que isto traz para o pluralismo de informação. E exigem ofertas inovadoras, que compensem a vontade de fazer assinaturas digitais. (…) E exigem outras formas de financiamento por experimentar. Quem conseguir ser o primeiro, o mais credível e o mais completo na rede sobreviverá neste meio onde a fidelidade dos leitores é muito mais volátil do que na imprensa.

A dos anunciantes: o imobilismo, a falta de imaginação e a falta de trabalho está a atrasar, em Portugal, a evolução dum meio que tem tudo para os favorecer. Não é preciso torturar os leitores com publicidade insuportavelmente intrusiva para ser eficaz. É preciso mais criatividade e trabalho de casa: a vantagem da rede é que permite direcionar a publicidade com mais eficácia e, em alguns casos, oferecer o produto no mesmo lugar onde ele é anunciado.

E também exige mais e melhores marketeers, publicitários, designers, etc. E todos mereçam ser pagos. Ou não?

A urgência do jornalismo (II)

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Um estagiário lança revista inovadora que é também um alerta para a exploração de estagiários um pouco por todo o lado

Será publicado em outubro o primeiro número de uma revista que dá a voz aos estagiários e é um alerta para a forma como os estágios estão a ser usados para recrutamento continuado de mão de obra qualificada a custo zero, um pouco por todo o mundo. Porque as pessoas que trabalham merecem ser remuneradas e respeitadas na sua dignidade esta iniciativa  chama a atenção para um problema global que em muito tem contribuído para a exploração de jovens que não conseguem alternativa senão saltar de estágio em estágio.

Alec Dudson «acha que está na hora de quebrar o tabu sobre os estágios. Este modelo de trabalho não remunerado tornou-se, para o bem e para o mal, uma parte importante da nossa cultura laboral. Então é preciso trocar umas ideias sobre o assunto — e para isso nasceu a Intern Magazine, uma revista dedicada à vida e ao trabalho dos estagiários. O projecto já foi financiado através do Kickstarter e o primeiro número vai ser lançado em Outubro». Escreve-se no artigo publicado no JORNAL PÚBLICO da autoria de Andréia Azevedo Soares.

Para conhecer o projeto vá a INTERN MAGAZINE.

 

ALEC INTERN MAGAZINE

A urgência do jornalismo (I)

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crise dos media JORNAL SOL

Ouvir «Tevê», música de ZECA BALEIRO

 «Existe uma crise dos media, mas não dos leitores»

Francesca Borri

É verão. Os corpos pedem preguiça e sol. A boca refresca-se à beira-mar seja  com uma bebida ou um cremoso gelado. Pode-se pegar num livro, um ipad ou num cinzentão pedaço de folhas onde desfilam notícias sobre a crise, a lata dos políticos, a falta de justiça, mais um assalto ou mais um incêndio. Tropeçamos em inquéritos bobos, não-notícias ou folhetins de vidas que nada acrescentam à nossa existência. Também podemos colocar de lado os jornais para entrar numa qualquer rede social e tomar o pulso à realidade. Vemos gente indignada pela maldade que fazem aos animais, um ror de gente enraivecida com a jornalista-sempre-na-moda. Os salários não esticam e vem aí Setembro com todas as despesas e resoluções para  mais uma longa jornada até ao próximo verão. Faz sol, faz chuva, os termómetros sobem abruptamente em Lisboa, e anunciam que o país está em rescaldo. Já chafurdamos num pântano e puseram-nos de tanga. Mas é nas redes sociais que vemos a vida em fragmentos, pequenos posts que muitas vezes nem lemos por inteiro mas que nos colocam a par de tudo o que se passa. Andamos assim com a vida pela metade, pejada de elipses e somas de pedaços que cada um organiza como quer. Ainda por cima, agora, dizem, estamos na silly season e os acontecimentos com que somos bombardeados esbarram na passividade dolente de um corpo que, mais uma vez se estica no sofá «E a vida a passar/ a vida sempre a passar», como canta Zeca Baleiro na música Tevê. De repente, esbarro com a frase da jornalista Francesca Borri num artigo de opinião de Nuno Ramos de Almeida no JORNAL I sobre a realidade do jornalismo dos nossos dias e fico a pensar na crise dos media, na falta de artigos que nos façam ficar colados ao jornal, na ausência de um jornalismo próximo das pessoas. Um jornalismo que não se deixe ofuscar pela higienização de uma qualquer redação televisiva onde a jornalista que se dá ao luxo de despender de umas centenas de euros por mais um par de louboutines se indigna perante os valores, ou a falta deles, de um jovem esbanjador, agora transformado em estrela. De tanto dinheiro se enche o ecrã, tanto brilho que até ofusca, mas o que queríamos, nós os leitores, era que dessem espaço a um outro jornalismo, chamemos-lhe de sapatilhas, dessas gastas pelo uso, pela ânsia da procura da melhor história ou do melhor ângulo. Queremos mais histórias contadas pelas Borris desta vida que estão realmente no terreno, sem paraquedas ou salário certinho, queremos de lado «o simplismo e o sensacionalismo», não queremos mais «cortes abruptos na qualidade da comunicação social». Porque como diz Nuno Ramos de Almeida: «Os leitores continuam a querer compreender aquilo que acontece no mundo e isso exige um jornalismo que vá para além da histeria das aparências, feito por jornalistas que vão aos locais para contar as histórias e entender as pessoas e as suas circunstâncias».

Mais escandaloso que o tempo e o modo como Judite Sousa entrevistou um jovem milionário com pouca história é o facto de nenhum órgão de comunicação social nacional ter conseguido enviar um jornalista para o Egipto. Não é o público que só consegue ler as Pepas e os Lorenzos desta vida, é a comunicação social que está a decretar o seu próprio suicídio.

Se lermos a “História de Portugal” organizada por José Mattoso, verificamos que no início do século xx, com uma população escassamente alfabetizada, “O Século” e o “Diário de Notícias” vendiam, cada um, cerca de 100 mil exemplares por dia. Em pleno século xxi, os nossos jornais têm muito menos leitores. Não foram eles que desapareceram, são os jornais, a comunicação social e os jornalistas que não estão a cumprir devidamente o seu papel de informar com qualidade. O que fazem não serve.

[origem: Nuno Ramos de Almeida in Jornal I]

As Relações com os Media

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Rui Novais no artigo The Full Repertoire: News and Press Management vs. Media Watchdog aborda o conflito entre os Meios de Comunicação e o papel dos profissionais de comunicação. O estudo de caso é o Unigate, a licenciatura de Sócrates. Para ler, pensar e opinar.

Abstract
This article deals with a rare event of an overt government attempt to manage the news in response to the political crisis caused by the 2007 media coverage of the Portuguese Prime Minister’s academic degree. The ‘Unigate’ controversy marked the end of the honeymoon period between the press and José Sócrates, as well as the first failure of the spinning and propaganda apparatus of the Cabinet. Apart from describing the full repertoire of action of both news and press management by the Prime Minister to prevent further adverse media coverage and to protect his image and reputation, this study offers critical evidence of cynical reporting and a
strategic conception of politics on the part of the Portuguese media. It concludes that the contrasting roles and functioning of the press in democratic societies can coexist and that, despite not being the norm, occasionally the media rises to the challenge posed by governments and political actors and performs its watchdog role.

WPCC-Vol7-No2-Rui_Alexandre_Novais

A explosão do jornalismo, por Ramonet

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Nos últimos tempos Ramonet andava morno. Ou melhor: descrente e ácido. O livro L’Explosion du journalisme. Des médias de masse à la masse de médias, a necessitar de tradução urgente em Portugal, relança a discussão em torno de alguns pressupostos essenciais.
A minha distração foi interrompida pela descoberta de uma entrevista traduzida em português do Brasil, por António Martins, disponível no Outras Palavras. Destaque para duas das respostas:

imprensa nunca foi perfeita, fazer bom jornalismo foi sempre um combate. Mas a partir da metade dos anos 1980, vivemos duas substituições. Primeiro, a informação contínua na TV, mais rápida, tomou o lugar da informação oferecida pela impressa escrita. Isso conduziu a uma concorrência mais viva entre mídias uma corrida de velocidade em que resta cada vez menos tempo para verificar as informações. (…)Particularmente há alguns anos, com a emergência dos “neojornalistas”, estas testemunhas-observadoras dos acontecimentos (sejam sociais, políticos, culturais, meteorológicos ou amenidades). Eles tornaram-se uma fonte de informações extremamente solicitada pelas próprias mídias tradicionais.

Wikileaks demonstrou que as mídias tradicionais já não funcionavam nem assumiam seu papel. Foi no nicho destas carências que o Wikileaks pôde introduzir-se e se desenvolver. O site também revelou que a maior parte dos Estados tinham uma lado obscuro, oculto. Mas o grande escândalo é que, depois das revelações do Wikileaks, nada ocorreu! Por exemplo: revelou-se que, na época da guerra do Iraque, um certo grupo de dirigentes do Partido Socialista francês dirigiu-se à embaixada dos Estados Unidos para explicar que, se estivessem no poder, teriam envolvida a França na guerra. E este fato – próximo da alta traição – não provocou reações.

Um resumo do livro disponível AQUI.