O hábito da gratuitidade da informação online

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Imagem retirada de Portal Intera Mais

Com a internet, esse conjunto de nós interligados como diz Castells, habituamo-nos a ter acesso a quase tudo gratuitamente. Este império, também do efémero, foi mais um dos factores a colocar em perigo o jornalismo tradicional. Jornais e revistas procuraram marcar presença online e foram-se atrofiando ainda mais. À deriva e, acima de tudo, caindo no erro de pensar que a opção pelo digital diminuiria custos. Erro crasso. O meio digital exige mais recursos, alia texto, imagem, som e vídeo, obriga à contratação de profissionais que dominem os meios e tenham competências digitais. Deveriam ter apostado num serviço diferenciado, em boas reportagens, bem contextualizadas, com ligações para assuntos anteriores, boas imagens só garantidas por profissionais que mereçam ser bem pagos e por jornalistas que fuçam, desenterram assuntos, mas, também precisam de tempo para investigar e produzir conteúdos que façam com que os leitores sintam que vale a pena pagar para ser melhor servido. Tudo isto vem a propósito do artigo de Daniel Oliveira E se de repente a informação voltasse a ser paga? . Em resumo precisa-se de mais conteúdo (sumo), de mais qualidade, de mais criatividade e de mais investimento para que o leitor sinta que aquilo que lhe estão a fornecer vale a pena ser pago, porque não o vão encontrar em outro lado, porque acrescenta valor, é distinto.

E do rol de reflexões no texto  cuja ligação está ali em cima, destaco:

A cultura dos utilizadores da Net ainda é uma cultura de gratuitidade.

Porque produzir informação custa dinheiro. Não é o mesmo que espalhar coisas pelo facebook. É recolher, selecionar, verificar e tratar informação. O que exige profissionais, tempo e meios. E, curiosamente, continua a ser esta informação tratada por jornalistas que a maioria dos cidadãos usa para, mesmo através doutros meios como as redes sociais, se informar. Arrisco-me a dizer que nunca a informação produzida por jornalistas foi tão usada e nunca, desde que há imprensa comercial, rendeu tão pouco dinheiro. Por agora, não poderemos viver sem jornalismo – a não ser quem se contenta com correntes de emails populistas para se manter “informado”. Mas ainda não temos forma de manter a atividade jornalística economicamente sustentável. Sobretudo quando as empresas das tecnologias de informação vampirizam, sem custos, o trabalho dos órgãos de comunicação social.

E Daniel Oliveira fala das revoluções necessárias, algo que, no conjunto, são bem difíceis de alcançar:

A dos leitores: têm de se habituar à ideia de que se quiserem continuar a informar-se gratuitamente terão de ter como única fonte o “diz que disse”.

A da regulação: empresas que usam informação produzida por outros para obter lucro têm de pagar por ela.

A dos jornalistas: terão de provar que há uma diferença entre receber informação deles ou de um qualquer boateiro. Nunca a credibilidade, numa rede cheia de lixo, foi um bem tão valioso. E têm de produzir informação própria, não se limitando a usar as fontes institucionais (responsáveis pela esmagadora maioria da informação jornalística). Se os jornalistas se limitam a replicar as fontes, a cultura e os critérios das redes sociais não têm nenhuma vantagem sobre elas. São apenas mais lentos e menos flexíveis. Têm de adaptar-se ao digital, não repetindo o que funciona no papel mas não é seguro que funcione num site. Mas não repetindo um lugar comum por provar: não é verdade que a Net só aguente textos curtos e assuntos leves.

A dos empresários: para garantirem muito mais velocidade e qualidade, os sites exigem mais investimento (em tempo de crise e quando não têm retorno). E exigem, provavelmente, uma fronteira menos clara entre os vários meios do mesmo grupo (rádios, televisões, jornais), com os riscos que isto traz para o pluralismo de informação. E exigem ofertas inovadoras, que compensem a vontade de fazer assinaturas digitais. (…) E exigem outras formas de financiamento por experimentar. Quem conseguir ser o primeiro, o mais credível e o mais completo na rede sobreviverá neste meio onde a fidelidade dos leitores é muito mais volátil do que na imprensa.

A dos anunciantes: o imobilismo, a falta de imaginação e a falta de trabalho está a atrasar, em Portugal, a evolução dum meio que tem tudo para os favorecer. Não é preciso torturar os leitores com publicidade insuportavelmente intrusiva para ser eficaz. É preciso mais criatividade e trabalho de casa: a vantagem da rede é que permite direcionar a publicidade com mais eficácia e, em alguns casos, oferecer o produto no mesmo lugar onde ele é anunciado.

E também exige mais e melhores marketeers, publicitários, designers, etc. E todos mereçam ser pagos. Ou não?

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