A urgência do jornalismo (I)

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crise dos media JORNAL SOL

Ouvir «Tevê», música de ZECA BALEIRO

 «Existe uma crise dos media, mas não dos leitores»

Francesca Borri

É verão. Os corpos pedem preguiça e sol. A boca refresca-se à beira-mar seja  com uma bebida ou um cremoso gelado. Pode-se pegar num livro, um ipad ou num cinzentão pedaço de folhas onde desfilam notícias sobre a crise, a lata dos políticos, a falta de justiça, mais um assalto ou mais um incêndio. Tropeçamos em inquéritos bobos, não-notícias ou folhetins de vidas que nada acrescentam à nossa existência. Também podemos colocar de lado os jornais para entrar numa qualquer rede social e tomar o pulso à realidade. Vemos gente indignada pela maldade que fazem aos animais, um ror de gente enraivecida com a jornalista-sempre-na-moda. Os salários não esticam e vem aí Setembro com todas as despesas e resoluções para  mais uma longa jornada até ao próximo verão. Faz sol, faz chuva, os termómetros sobem abruptamente em Lisboa, e anunciam que o país está em rescaldo. Já chafurdamos num pântano e puseram-nos de tanga. Mas é nas redes sociais que vemos a vida em fragmentos, pequenos posts que muitas vezes nem lemos por inteiro mas que nos colocam a par de tudo o que se passa. Andamos assim com a vida pela metade, pejada de elipses e somas de pedaços que cada um organiza como quer. Ainda por cima, agora, dizem, estamos na silly season e os acontecimentos com que somos bombardeados esbarram na passividade dolente de um corpo que, mais uma vez se estica no sofá «E a vida a passar/ a vida sempre a passar», como canta Zeca Baleiro na música Tevê. De repente, esbarro com a frase da jornalista Francesca Borri num artigo de opinião de Nuno Ramos de Almeida no JORNAL I sobre a realidade do jornalismo dos nossos dias e fico a pensar na crise dos media, na falta de artigos que nos façam ficar colados ao jornal, na ausência de um jornalismo próximo das pessoas. Um jornalismo que não se deixe ofuscar pela higienização de uma qualquer redação televisiva onde a jornalista que se dá ao luxo de despender de umas centenas de euros por mais um par de louboutines se indigna perante os valores, ou a falta deles, de um jovem esbanjador, agora transformado em estrela. De tanto dinheiro se enche o ecrã, tanto brilho que até ofusca, mas o que queríamos, nós os leitores, era que dessem espaço a um outro jornalismo, chamemos-lhe de sapatilhas, dessas gastas pelo uso, pela ânsia da procura da melhor história ou do melhor ângulo. Queremos mais histórias contadas pelas Borris desta vida que estão realmente no terreno, sem paraquedas ou salário certinho, queremos de lado «o simplismo e o sensacionalismo», não queremos mais «cortes abruptos na qualidade da comunicação social». Porque como diz Nuno Ramos de Almeida: «Os leitores continuam a querer compreender aquilo que acontece no mundo e isso exige um jornalismo que vá para além da histeria das aparências, feito por jornalistas que vão aos locais para contar as histórias e entender as pessoas e as suas circunstâncias».

Mais escandaloso que o tempo e o modo como Judite Sousa entrevistou um jovem milionário com pouca história é o facto de nenhum órgão de comunicação social nacional ter conseguido enviar um jornalista para o Egipto. Não é o público que só consegue ler as Pepas e os Lorenzos desta vida, é a comunicação social que está a decretar o seu próprio suicídio.

Se lermos a “História de Portugal” organizada por José Mattoso, verificamos que no início do século xx, com uma população escassamente alfabetizada, “O Século” e o “Diário de Notícias” vendiam, cada um, cerca de 100 mil exemplares por dia. Em pleno século xxi, os nossos jornais têm muito menos leitores. Não foram eles que desapareceram, são os jornais, a comunicação social e os jornalistas que não estão a cumprir devidamente o seu papel de informar com qualidade. O que fazem não serve.

[origem: Nuno Ramos de Almeida in Jornal I]

Uma opinião sobre “A urgência do jornalismo (I)

    maiores23ensinosuperior disse:
    Agosto 20, 2013 às 17:08

    Não podia estar mais de acordo consigo.Ler as noticias é quase obrigatório, não podemos desligar do mundo que nos rodeia mas cada vez mais se torna difícil conseguir ler um artigo até ao fim ou até mesmo o jornal. A falta de noticia é impressionante, sempre mais do mesmo. Esta mudança é precisa, sem dúvida alguma.
    Melhores dias viram para o ” jornalismo em portugal”..? Talvez, quem sabe.

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